Atualizado em 23/01/2017 01:41 por Rubens Silva
Padre Ivan revela segredos da sua missão na África
O líder religioso abre o coração e relata detalhes emocionantes sobre seu trabalho missionário que está desenvolvendo na longínqua Guiné-Bissau. Durante a entrevista, Padre Ivan descreve momento de muita alegria, realização e esperança, além de decepção e

Depois de fazer história na cidade de Goioerê, o padre Ivan Luiz Walter aceitou a missão de viver um dos maiores desafios de sua vida. Durante o período que esteve há frente da Paróquia Nossa Senhora das Candeias o religioso desenvolveu um excelente trabalho que resultou no reconhecimento de toda uma cidade.
Com seu jeito simples, descontraído e encantador, ‘Padre Ivan’ ser tornou uma das maiores personalidades local, conquistando o respeito e a admiração de todos, inclusive de fiéis e líderes de outras denominações.
Padre Ivan revela que sua maior motivação para aceitar esse grande desafio foi a Exortação Apostólica Evangellii Gaudium – Evangelho da Alegria do papa Francisco, que reafirma o convite e a motivação de Jesus em ser uma igreja em saída, conforme descreve a passagem bíblica de Mateus 28: 19.
Ele conta que essa citação bíblia lhe motivou abandonar a sua zona de conforto. “Esta saída deve ser de alegria que se renova e se comunica através da presença do Evangelho, onde a cruz de Cristo deve resplandecer gloriosa, sendo fonte da presença cristã nas mais diversas regiões, mas principalmente no meio dos que vivem nas periferias da humanidade”, justificou.
O padre continua citando que junto a esse impulso o papa Francisco convocou o Jubileu Extraordinário do Ano Santo da Misericórdia, apresentando a bula ‘Misericordiae Vultus’ – rosto da misericórdia com o lema ‘Misericordiosos como o Pai’. “Diante dessas interpelações me senti questionado e motivado a agir de maneira mais atuante para dar respostas as inquietações que surgiram através da minha vocação e do meu ministério”, relatou ele, mas confessando que nunca pensou em sair do Brasil.
O religioso revela que seu conflito interior aumentou depois que recebeu um convite do bispo Dom Javier para fazer um mestrado em Teologia Dogmática em Roma. “Mas Deus tem planos para nossas vidas, que jamais imaginamos”, destacou.
COMO FOI SUA CHEGADA?
Padre Ivan conta que a sua primeira sensação ao chegar a Guiné-Bissau foi de muita decepção. Ele explica que na chegada ao aeroporto foi recepcionado por um excesso de burocracia e uma escassez de eficácia e eficiência. “Isso tudo aliado a inúmeros pedidos de contribuição, ou seja, cobrança de propina, para agilizar o processo de entrada no país”, contou.
Mas o padre frisa que essa má impressão foi passando logo que começou a seguir para a cidade de Quebo, onde começou a perceber as maravilhas existentes naquele pequeno país de 36.125 km2. “Grandes áreas verdes e uma população alegre e esperançosa”.
DIFERENÇA ENTRE A PAROQUIA E A MISSÃO?
Ele informa que é uma realidade totalmente diferente, porém cada uma com sua beleza e encanto. “Nas paróquias onde trabalhei no Brasil havia uma caminhada missionária ao longo dos anos, com muitas lideranças, uma organização pastoral e com movimentos atuantes”, explicou. “Já aqui é uma região basicamente de primeiro anuncio, com poucos cristãos, para ser mais preciso apenas 11,5% se revelam católicos ou protestantes, os demais de dividem em 45% em animista, religiões étnicas; 42% mulçumanos; 1,5% ateus e outras religiões”, revelou.
ESTÁ GOSTANDO DA EXPERIÊNCIA?
Segundo ele, a experiência da missão está sendo muito edificante e o mais difícil foi superar a zona de conforto. “Mesmo com a preparação de quase um mês no Centro Cultural Missionário em Brasília, com um grande número de missionários, confesso que não cheguei preparado o suficiente e as surpresas acabam sendo inevitáveis”, relatou.
MAIOR OBSTÁCULO?
De acordo com o sacerdote, o maior obstáculo é ter a consciência que o protagonista da missão é Deus e não eu, pois a missão é Dele. “Eu apenas sou um instrumento e penso que esse seja um dos maiores obstáculos, de não permitir que o servo apareça mais que o seu Senhor”, explicou.
Ele também revela que outro grande obstáculo é a preocupação e o cuidado para não ser afetado pela malária, que é o grande terror dos missionários e do povo da Guiné-Bissau e que continua ceifando muitas vidas, principalmente crianças.
O QUE ESTÁ SENDO A MAIOR DIFICULDADE?
Na visão do religioso não existe uma dificuldade e sim um conjunto de dificuldades. “Poderíamos fazer uma longa matéria somente para falar sobre esse assunto na Guiné-Bissau”, brinca ele, citando a instabilidade do poder naquele país que tem um sistema de governo semipresidencial. “Somente nos últimos meses já tivemos cinco primeiros-ministros e em novembro até o presidente foi demitido”, afirmou.
Padre Ivan também cita que aquela região da África tem um dos IDH mais baixo do mundo, sem falar no índice de corrupção que é elevadíssimo. Outro dado alarmante é que, mais de dois terços da população vive abaixo da linha da pobreza, sem dignidade, saneamento básico e até eletricidade. “A fome neste período aumenta devido à escassez das economias da população, pois a maior fonte de renda do país está baseada na produção de caju, que está atualmente na fase de florescimento. A colheita deve iniciar somente depois de fevereiro”, citou.
Ele também conta que metade da população é analfabeta e a educação é de baixa qualidade. “As melhores escolas são das missões espalhadas pelo país. A perspectiva de vida aqui gira em torno de 50 anos”. A agricultura é apenas para subsistência.
Segundo ele, a área de saúde é melhor nem comentar, pois seria necessário um relatório muito extenso. “Aqui prevalece a medicina caseira, os Jambacus e Mouros espécie de curandeiros, são os mais procurados para socorrer a população”, destacou.
QUAL A SITUAÇÃO MAIS TRISTE QUE SE DEPAROU?
O missionário revela que foram muitas, mas entre tantas, ele cita uma visita a um pequeno hospital, onde foi levar almoço para os doentes e se deparou com uma mulher deitada em um corredor sem iluminação, em trabalho de parto.
Ele conta que no momento, o único médico do hospital não estava no local, e apenas um enfermeiro com pouca qualificação prestava o atendimento. “Ao invés da cabeça, a criança começou nascer pelos pés. Infelizmente essa história não teve um final feliz, pois a cabeça não saia e mesmo sendo puxada, a criança acabou morrendo asfixiada”, revela.
QUAL FOI O MAIOR MOMENTO DE ALEGRIA?
Apesar das dificuldades e tristezas, o padre faz questão de citar momentos de grande alegria e emoção. Ele cita que a maior felicidade é ter a oportunidade de participar deste projeto que proporciona esperança para esse povo sofrido. “Minha maior alegria é ver que apesar de tudo, eles esbanjam confiança, ao invés ficarem se lamentando ou sofrendo”, justifica. “Mais felicidade mesmo é o momento do encontro com as crianças que são uma fonte inesgotável de alegria e otimismo”, declarou.
QUAL SEU OBJETIVO NESTA MISSÃO?
Ele afirma que continuará aguardando as surpresas de Deus, deixando Ele lhe conduzir sem medo, na sua vontade que é perfeita, santa e rica em misericórdia. E segundo permanecer em sintonia com a Comissão Missionária do Regional, com o Regional Sul II que é composto pelas 18 dioceses no Paraná e com a minha Diocese de Campo Mourão que é constituída desta parcela maravilhosa do povo de Deus.
ATÉ QUANDO EM GUINÉ-BISSAU?
Rindo muito, ele responde copiando as palavras de Nossa Senhora. “Eu sou a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”. Ele também relata que deve obediência ao bispo diocesano, com quem tem um acordo de permanecer na missão até 2018.
Para finalizar, Padre Ivan faz questão de convocar a todos para continuar vivendo a alegria de ser de Deus, de ser igreja, de ser amigo e de ser amor para o mundo. “Somente desta maneira assumiremos o comportamento dos primeiros cristãos que se mostravam assíduos aos ensinamentos dos apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do pão e as orações conforme citação e Atos 2: 42”.
Ele ainda cita Mateus 28: 20, que diz: “Vai que estarei contigo todos os dias até a consumação dos tempos”. Se despedindo, Padre Ivan deixa a passagem de II Coríntios 13: 13 “Que a graça do nosso Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espirito Santo estejam com todos vocês”. “E tudo de bom!”, concluiu.
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